Cid deu um tiro no pé

Saiu pela culatra o tiro que o ex-governador Cid Gomes (PDT) disparara contra Wesley Batista. Cid entrou no radar da Lava Jato depois que o dono da JBS o incluiu em delação, dando conta de duas doações de campanha, que seriam fruto de propina. Na última campanha teria sido de R$ 20 milhões e na anterior, quando da reeleição de Cid, teria sido de R$ 5 milhões.

Wesley relata uma conversa com o deputado Antônio Balhmann (PDT), que fora o interlocutor da negociação. O empresário afirmou que o Estado lhe devia mais de R$100 milhões em créditos de ICMS e condicionou sua doação ao recebimento daqueles recursos. Disse que não havia até então recebido nenhum centavo do Estado.

Cid Gomes entrou com o pedido na PGR para processar, por mentira/omissão, Wesley Batista e até questionar a delação.

Para embasar sua solicitação, o ex-governador enviou dados demonstrando que o Estado havia depositado  R$ 41 milhões, que o delator propositadamente omitira.

A procuradora Raquel Dodge atendeu parcialmente ao pedido. Aceitou que a ação corra no STF, por causa do foro de Balhmann. O outro processo, cujo interlocutor teria sido o secretário Arialdo Pinho, vai continuar na Justiça do Ceará. Mas negou o principal, e ainda deixa transparecer que Cid Gomes se incriminou, que a sua iniciativa teria contribuído para corroborar a narrativa de Wesley Batista:

Os pagamentos no total de R$ 41 milhões ao longo de três anos e o pagamento de R$ 110 milhões apenas no ano de 2014, na verdade corroboram o que foi narrado pelo colaborador, uma vez que em três anos se pagou menos da metade do total pago no ano eleitoral, justamente o ano em que o Wesley Batista afirma que pagou R$ 20 milhões de reais de propina para a liberação dos créditos.

Para Dodge, Wesley usou figura de linguagem quando disse que o Estado não pagou um centavo, quando na verdade recebeu R$ 41 milhões no período de três anos.

Em resumo, o deputado Antônio Balhmann garantiu a Cid o julgamento no STF. Mesmo assim, não escapou da primeira instância, pois a procuradora negou a tese da continuidade delitiva e separou os processos, mandando um deles para o Ceará. E quanto ao mérito, deu verossimilhança à versão de Batista.

 

Matéria da Folha.