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Coxinhas e mortadelas nas redações

Em tempos de tanto radicalismo, com os poderes fragilizados e escancarados, onde é difícil identificar golpistas e golpeados, já que muitas vezes não passam de mais do mesmo, se faz fundamental que o bom jornalismo preste de fato um serviço relevante à sociedade realizando o que deve: apurar e divulgar todos os fatos e versões sem brigar com a verdade.

É triste, contudo, vermos que esse clima de vale tudo infelizmente se instaurou nas redações e nomes da envergadura de Reinaldo Azevedo e Ricardo Kotscho já se digladiaram através de respectivos textos.

Para reflexão valer ler o artigo do experiente jornalista Mário Marona, escrito em 14 de dezembro de 2011, que mesmo não sendo dos mais recentes, se faz super atual.

Mesmo com menos tecnologia, que definitivamente veio para ajudar, as coisas aparentemente já foram mais fáceis.

Por que a imprensa finge que não vê o livro do Amaury?

Mário Marona

Deve ser possível contar nos dedos quantos amigos José Serra tem nas redações. Quase ninguém na mídia é “serrista”. Não nas redações dos jornais, das tevês e das rádios. Há exceções claro, e pelo que soube esta semana o editor-chefe de um grande jornal teria trabalhado para Serra, mas isto não significa que ele tenha pelo ex-chefe profunda admiração. Serra também não deve ter muitos amigos entre os acionistas das empresas de comunicação. Serra sempre foi apenas uma alternativa possível da imprensa a Fernando Henrique Cardoso para enfrentar Lula e, depois, a candidata de Lula.

Quem finge gostar de Serra nas redações, excetuando os amigos do peito, caso ele os tenha, na verdade não gosta mesmo de Serra – apenas o prefere a Lula. Jornalista que apoia Serra – de novo com as exceções possíveis – o faz por não gostar de Lula, e não gosta de Lula por vários motivos, razoáveis ou não: preconceito, antagonismo político, por considerá-lo populista, por conservadorismo, preferência clara por FHC etc. A imprensa protege Serra por falta de coisa melhor. Fará o mesmo com Aécio Neves, caso ele vire candidato, por motivo idêntico.

Não corre risco de perder quem apostar que Ricardo Noblat não tem qualquer identificação com Serra. Não seria estranho descobrir que Eliane Cantanhêde, Dora Kramer, Lúcia Hipólito e tantos outros, mesmo que queiram no poder alguém que considerem melhor que Lula e Dilma, e certamente querem, ficariam satisfeitos se a opção não fosse Serra nem Aécio. Especulo sobre a vontade destes poucos jornalistas, todos muito conhecidos, mas poderia estar falando da maioria. Cito-os porque estão entre os mais citados.

Serra não é diferente da maioria das fontes: detesta jornalista. Também não gosta de dono de jornal, mas os adula e quase sempre obtém deles o que precisa. Serra gostaria de demitir qualquer jornalista que fizesse matéria negativa para a imagem dele, e é possível que já tenha conseguido isso, embora não seja provável que tenha sido bem sucedido na maioria das tentativas. Hoje em dia, isto não é tão fácil como já foi.

E é aqui que trago ao assunto o livro A privataria tucana, sobre o qual a imprensa tradicional faz pesado silêncio.

Decididamente, os colunistas e os editores, pelo menos a maioria, não estão fingindo ignorar o livro de Amaury Ribeiro Jr para proteger Serra. Suspeito que até que alguns achariam divertido ver Serra em maus lençóis, tendo que se explicar sobre as acusações que sofre no livro.

Também não creio realmente que colunistas e editores desprezem o livro porque acreditam que Amaury foi contratado por assessores da campanha petista no ano passado para espionar Serra ou vender informações contra os tucanos. Todos eles sabem que esta foi uma, e apenas uma, das mentiras inventadas durante a campanha.

Este foi um dos fatos “esquentados” na campanha para beneficiar a oposição. Para os jornais e para as emissoras que dedicaram enorme espaço e tempo a este factóide fica muito difícil, agora, admitir que “não foi bem assim”. Como seria difícil, mesmo agora, noticiar que a agenda de Lina Vieira jamais apareceu e que Rubnei Quicoli já confessou que mentiu. Como foi difícil admitir com clareza que a ficha policial atribuída a Dilma era uma montagem mal feita.

Isto seria mais do que um “erramos”. Seria um “mentimos”.

Os jornalistas também sabem que, mesmo sendo meio falastrão e parecendo um tanto estabanado, Amaury é um grande repórter, é honesto e não está mentindo ou, para ser mais isento, pelo menos acredita que está contando a verdade. Sabem, por fim, que a origem desta história que resultou num livro está na reação de Aécio Neves a uma ação mafiosa típica dos serristas.

Por que, então, os colunistas, editores e jornalistas da maioria dos grandes veículos fingem ignorar o livro?

Porque obedecem à linha editorial dos jornais e das emissoras em que trabalham. Obedecem, agora, e sempre obedeceram. (E aqui, em nome da isenção, acrescento a parte que me toca: eu mesmo, quando trabalhei nas grandes redações, me sujeitei à linha editorial dos veículos e se eventualmente me insurgia internamente contra elas, tentando modificá-las, nunca deixei de segui-las disciplinadamente, uma vez derrotado em minhas posições. Ou pedia o meu boné.)

O que mudou, então? Por que os jornalistas se vêem obrigados a depreciar publicamente um colega de profissão, como o Amaury, com quem, aliás, muitos deles conviveram amistosamente? E por que estamos vendo jornalistas importantes entrando em guerra com seus leitores por causa de um livro que, se pudessem, tratariam como notícia ou comentariam?

Arrisco uma resposta: porque hoje os leitores pisam nos calos destes jornalistas, o que há uma década atrás – ou menos – não acontecia.

No meu tempo, e vale dizer também no tempo do Noblat, da Dora, da Eliane, do Merval, o leitor não existia como figura real. Era um anônimo, mal representado, diariamente, em uma dúzia de cartas previamente selecionadas para publicação e devidamente “corrigidas” em seus excessos de linguagem. Tem gente que não lembra, porque começou a ler jornal depois, mas naquele tempo nem e-mail existia, exceto, talvez, como forma de comunicação interna das empresas.

Noblat, Dora, Merval, Eliane  (e eu) escreviam, editavam e publicavam o que queriam, desde que não contrariassem os acionistas, representados pelos diretores de redação. Por acaso, dois dos citados foram diretores de redação e eu fui editor-chefe adjunto no Globo e editor-chefe do JN. Não eram – não éramos – contestados por ninguém. Quem não gostasse que se queixasse ao bispo, ao editor de cartas – por carta, claro – ou então que suspendesse a assinatura ou mudasse de canal.

Publicavam o que queriam, autorizados pelos donos, e continuam agindo da mesma maneira, mas hoje são imediatamente incomodados, cobrados, questionados, xingados pelos leitores, por e-mail, em blogs, por tuites e por caneladas no Facebook.

Fazem a mesma coisa – obedecer à linha dos seus jornais – só que agora têm que dar explicações a um grupo crescente de chatos, nem sempre bem educados, e não podem botar a culpa no patrão. Não podem dizer no twitter: “Olha, gente, eu não vou escrever sobre o livro do Amaury porque o meu jornal decidiu ignorá-lo, pelo menos por enquanto”.

Aparentemente, só existe uma opção: justificar a censura do livro nos seus veículos por meio da depreciação do autor, que está sendo chamado de louco e de venal – o que ele nunca foi, nem quando era um deles, época em todos o exaltavam como um dos maiores repórteres do país. Mesmo porque o ex-PM João Dias, o escroque Rubnei Quicoli e até Pedro Collor nunca foram tratados como cidadãos de reputação ilibada e nem por isso deixaram de ser considerados fontes válidas por estes e por quase todos os demais jornalistas. E estas fontes nem se deram ao trabalho de tentar provar o que diziam.

A alternativa a declarar-se censurado ou tolhido é entrar em guerra com uma parte dos leitores, buscando apoio em outra parte, neste caso naquela que detesta Lula, Dilma e o governo petista. Cobrados, reagem no mesmo tom. Acossados, pedem ajuda ao “outro lado”.

O autor deste texto trabalhou em pequenos e em grandes veículos. Também trabalhou como assessor de imprensa de empresários e de políticos, de vários matizes. É o que faz agora, como redator, razão pela qual fechou temporariamente o blog que mantinha para emitir opiniões. Entende que assessoria de imprensa, ainda que seja um trabalho digno e necessário, não é jornalismo, porque não lhe dá o direito à isenção. Continua analisando a imprensa, como cidadão, de maneira não-metódica, mas toma o cuidado de não depreciar pessoalmente aqueles que eventualmente critica. Não se julga melhor do que ninguém, nem sabe, francamente, como agiria hoje, na mesma situação dos colunistas e jornalistas dos grandes veículos – exceto que, talvez, evitasse o twitter e o Facebook, onde o confronto é muito mais agressivo.

Mas aos que alegam que é preciso ignorar o livro do Amaury porque ele foi acusado disso ou daquilo e não seria um autor confiável, responde com uma experiência pessoal. Editor do Globo em 1992, uma noite recebeu na redação o livro Passando a limpo, a Trajetória de um Farsante, de autoria de, vejam só, Dora Kramer e Pedro Collor de Mello. O livro trazia acusações tão pesadas contra Fernando Collor que, em alguns casos, a prova dependeria de exame de corpo de delito. O editor teve que ler o livro em duas horas, para escrever uma resenha rápida, que seria publicada na edição do dia seguinte.

Naquela época, no Globo e, creio, nos demais jornais, não era possível ignorar uma peça de acusação tão enfática, ainda que desprovida de provas. Nem era possível guardar para ler depois. E pouco importava se a origem das acusações de Pedro contra Fernando era uma briga entre irmãos envolvendo até mulher. Era notícia, e pronto.

Mário Marona é jornalista.

 

Para FENAJ, não absolvição de Lula é golpe

 

A Federação Nacional dos Jornalistas, FENAJ, divulgou em sua página na internet nota oficial em favor do ex-presidente Lula, que será julgado em segunda instância nesta quarta-feira, 24, pelo TRF4, por conta do caso do famoso triplex.

No entendimento da FENAJ, a não absolvição de Lula será uma “farsa judicial”.

Curiosamente, mesmo com um posicionamento extremista, a entidade reguladora dos profissionais do jornalismo cobra de seus filiados “ética e responsabilidade profissional”, quando na cobertura do citado julgamento.

A ministra dá trabalho

Em tempo de fake laws, o Judiciário resolveu governar o Brasil. Não há um ato do Executivo, ainda que expresso na Constituição como privativo seu, que não tenha um juizeco, para usar elegante expressão de um prócer da República que desmoralizou o STF e  jamais passou nem perto de prisão. Pois bem, virou moda. Não há um ato que a Justiça não esteja dando pitaco, mais que isso: paralisando o governo.

A presidente do STF, Carmen Lúcia, autora do voto mais confuso da história da instituição, é daquelas que atravessam a rua para escorregar na casca de banana na outra calçada. Seu ativismo varou a madrugada, noutra decisão também estranha. Já era esquisito impedir a posse de uma ministra por liminar, mais que uma descortesia com a primeira mulher do time. Seis ações contra sua posse, todas negadas, exceto uma, que prevaleceu. Legal, mas revela estranheza do sistema.

No sábado 20, o presidente do STJ, em exercício, Humberto Martins, se baseou no óbvio e disse que não seria ilegal, derrubando a liminar da primeira instância. Eis que se apela no dia seguinte ao STF, alegando que o STJ usurpara atribuição constitucional do STF. Mas reparem, os impetrantes não apresentaram a peça que estava sendo contestado. Sem ela, o juiz não tem como decidir. Costuma ser fatal: negar o pedido. Mas não, num ato que desrespeita seu colega do STJ, pois nem teve acesso ao writ de Martins.

Resolveu agradar, como tentou agradar as duas partes naquele famigerado julgamento que salvou Aécio. Salomonicamente, manteve a suspensão e deu 48 horas para as partes se pronunciarem.

Detalhe para reflexão. Até agora não se julga o mérito, só decisão liminar. E decisão liminar precisa estar calcada em dois conceitos expressos em latim: o periculum in mora e fumus boni iuris. E é preciso inovar na fake laws para encontrar aí o “perigo na demora”, justificado pelo receio que a demora da decisão judicial cause um dano grave ou de difícil reparação, quando da decisão final.

Neste caso, o juiz entende que se Cristiana Brasil assumir o Ministério do Trabalho, e, quando sobrevier sua decisão e ela for desfavorável ao governo, haverá o tal do dano irreparável. Ora, se amanhã, a Justiça se decidir pela exoneração da ministra, bastará sua destituição e a posse de outro. Qual dano o magistrado viu? Se há dano, talvez seja o da interinidade, causada exatamente pela Justiça. Tosco isso.

 

 

O neofeminismo assexuado odeia o desejo

Artigo de Antonio Risério, na revista Época.

O manifesto das 100 francesas, estrelado por Catherine Deneuve, explodiu como uma bomba arrasa-quarteirão no meio do arraial neofeminista americano, com seus discursos e posturas reacionários, primando pelo obscurantismo repressivo. Não era para menos. Esse neofeminismo é uma degeneração grotesca do feminismo original da contracultura, na década de 1960, cujo libertarismo espalhou-se então pelo mundo. E sob o signo da “revolução sexual”, que hoje horroriza o neofeminismo puritano, fundado no combate ao desejo e na repulsa ao sexo.

É impressionante a degringolada. E justamente nos Estados Unidos, que nos deram a linha de frente do feminismo revolucionário daquela época, com Betty Friedan, Gloria Steinem, Germaine Greer etc. Mas é como ensina a poesia de T.S. Eliot: “Nossos princípios nunca sabem de nossos fins”. O que foi libertário, na contracultura, agora se congela em puritanismo pétreo. Em aversão ao corpo, aos jogos amorosos, à exuberância narcísica, aos prazeres sexuais. Enfim, o revolucionarismo multicolorido acabou gerando seu avesso: o reacionarismo mais cinzento.

Lembro-me de Lyn Lofland, a socióloga americana, autora de livros como A world of strangers (Um mundo de estranhos, numa tradução livre) e The public realm (O domínio público). Em seus estudos, Lyn, na linha das melhores reflexões da ativista urbana Jane Jacobs (1916-2006), observa que a sociologia urbana foi distorcida e lacunar, ao falar da presença da mulher nos espaços públicos da cidade. Sua ótica incidia, com ênfase excessiva, no perigo. Trazia para o primeiro plano não a atuação da mulher na cidade, mas o assédio sexual. Lyn não nega a prática do assédio, obviamente, mas acha que ela foi superestimada pelos sociólogos, numa visão exagerada dos espaços públicos como áreas de risco para as mulheres, contribuindo inclusive para enfraquecer a presença feminina nessas áreas.

Hoje, o que vemos é a exacerbação extrema do quadro. É claro que temos de combater o assédio sexual. Mas é preciso um mínimo de sensatez. Imbecilidade querer fazer de um olhar, de uma frase deliciosamente cheia de malícia ou de uma cantada equivalentes a agressões sexuais. Um olhar não é um estupro. Um longo e modulado assovio, saudando um belo par de coxas que desfilam graciosamente ao ar livre, cabe muito mais na conta do elogio do que no rol das agressões. A não ser aos olhos desse atual feminismo fundamentalista, “Estado Islâmico”, que acaba de braços dados com o que há de pior no neopentecostalismo “evangélico”. Coisa para aiatolá nenhum botar defeito.

E as manifestantes francesas, inteligentes e requintadas, tocam nos pontos certos. Denunciam que, depois da fogosa revolução sexual da contracultura, o neofeminismo puritano quer converter as mulheres em figuras de museu de cera. E vão ao grão da questão: seu inimigo principal, mais do que o homem, é o desejo. “Como mulheres, não nos reconhecemos neste feminismo que, além de denunciar o abuso de poder, incentiva o ódio aos homens e à sexualidade”, diz o manifesto. E ainda: “Essa febre de enviar ‘porcos’ ao matadouro, longe de ajudar as mulheres a serem mais autônomas, serve realmente aos interesses dos inimigos da liberdade sexual, dos extremistas religiosos, dos piores reacionários”. Nada mais certo.

É a degradação final dos avanços sociais da década de 1960. Assim como a luta contra a discriminação racial veio a dar no racifascismo neonegro, a luta pela igualdade entre os sexos descambou nesse feminismo assexuado. É o naufrágio nas águas grossas e turvas dos movimentos identitários. Hoje, paradoxalmente, todo “neo” é sinônimo de retrocesso. E essa turma quer abolir as classes sociais, a história e a variabilidade antropológica da humanidade. Em seu discurso, todo branco é igual e todo homem é idêntico: não há diferença entre Stálin e Dorival Caymmi. É ridículo.

E o mais grave: tais identitários se fecham como adversários furiosos da diversidade, portando-se feito loucos ferozes desejosos de banir da face da Terra quem discorda de seus dogmas. São a encarnação da intolerância. E, por isso mesmo, inimigos da vida democrática.

Antonio Risério  é  antropólogo, poeta e romancista, autor de livros como A utopia brasileira e os movimentos negros e A cidade no Brasil.

Cabral acorrentado

Em tempos de fake news, o Judiciário brasileiro inova com fake laws.

Diante das imagens de regalias na prisão de Sérgio Cabral, a Polícia Federal também deu mostras de sua indignação e atropelou a Lei para dizer que com eles o negócio é diferente. Enquanto transmitia ao vivo a apresentadora Leilane Neubarth, da Globo News, salivava. Ao notar que o preso estava sendo conduzido no camburão, disse que a vida de Cabral iria mudar completamente a partir dali. Completamente, repetiu. Depois, se tocou que tinha exagerado, quase se desculpou: “Não é que a gente torça, que a gente tenha prazer com a prisão…”. Como diria Gilmar, imagina!

Investigação de qualidade e polícia de primeira linha não desviam um milímetro da legalidade nem afrontam a dignidade do preso, prevista na legislação. A afirmação é de Mário César Carvalho, em artigo para a Folha de hoje, cujo título diz tudo: Tratamento medieval a Cabral só enfraquece a Lava Jato. 

Comparou as correntes às conduções coercitivas:

A humilhação das correntes nos pés tem um parentesco óbvio com a condução coercitiva, mecanismo que a Lava Jato usou e abusou até ele ser vetado em caráter provisório pelo ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal.

É um constrangimento jurídico ilegal e inconstitucional, sentenciou o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal Carlos Ayres Britto, para O Globo:

A Constituição proíbe esse tipo de tratamento desumano e cruel. As algemas para os pés só são admissíveis em situação que há risco de fuga ou agressão.

A Polícia Federal se defendeu dizendo que seguiu protocolo de segurança. Balela, como diz um amigo meu. Nenhum protocolo pode se sobrepor à Constituição, e há uma súmula vinculante do STF sobre o assunto, resumida por Ayres Brito. Se nenhum cidadão pode alegar desconhecimento de lei, muito menos a PF em assunto associado a seu mister.

Basta cumprir a Lei. Por falar nisso, por que mesmo transferir para Curitiba, só por causa de regalias? Curitiba também teve casos de revelia. Quanto nós, cidadãos, pagamos por aquela operação de transferência?

Mais Lei e menos espetáculo, seja da Procuradoria, seja da Polícia Federal. E também de juízes que agora pululam entre os que querem interferir em ações privativas do Executivo e usufruir dos seus minutos de fama.

Em tempo de fake news, o Judiciário brasileiro está se especializando em fake laws.

 

Garotinho tinha razão

Perícia detecta edições grosseiras nas imagens do circuito interno que não viram agressão a Garotinho.

Anthony Garotinho (PR) disse que foi agredido dentro da cadeia pública José Frederico Marques. À época, a Seap afirmou que as imagens não detectaram entrada de nenhum suspeito na cela de Garotinho. Agentes declararam à imprensa que o político se auto agrediu para forçar a transferência para Bangu 8, o que acabou ocorrendo.

Mas as gravações foram editadas. É o que garante a perícia do Ministério Público , que apontou três fragilidades no sistema. De acordo com a promotoria, o conjunto de gravações do caso apresentou “interrupções atípicas”, imagem congelada e evidência de “interferência humana” na captação dos vídeos.

Segundo a Folha, Garotinho foi preso no dia 22 de novembro e ficou detido, inicialmente, na galeria A com outros presos. O ex-governador Sérgio Cabral (MDB), seu rival político, ficava na C até ser transferido para Curitiba nesta quinta (18).

No dia seguinte, ele foi levado para a galeria B, uma ala que estava desativada. Único preso no local, ele afirma ter sido agredido na madrugada do dia 24. Segundo seu relato, um homem bateu em seu joelho com um porrete e pisou em seu pé.

“Depois apontou uma pistola dizendo: ‘Você não vai morrer hoje para não sujar para o lado do pessoal ali’, apontando para a galeria do pessoal da Lava Jato”, afirmou Garotinho.

As câmeras agora se voltam contra a administração da cadeia. Enquanto isso, vale a versão de Garotinho, a de que foi agredido. Precisa ser apurado.